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19/02/2009 - 16:30
À caça
 

“Às oito da manhã todos os migrantes são poucos; às oito da noite todos sobram”. Estas eram as palavras de um prefeito de uma cidadezinha no Sul da Espanha no ano 2000, ainda quando ninguém sonhava que um dia a economia entraria num período de recessão, e quando as mãos dos migrantes eram necessárias para o trabalho. Hoje, os migrantes são uma verdade incontestável.

A sociedade espanhola acordou dias atrás com a notícia de que nas delegacias de polícia de Madri correu um documento interno que estipulava que em cada delegacia os agentes deveriam efetuar um mínimo de 35 detenções de imigrantes na semana. Se em um distrito policial não há possibilidade de fechar as vagas, estas, segundo o mesmo documento, devem ser procuradas em outros distritos. Os policias são impelidos a cumprir a ordem, e inclusive para aqueles que mais e melhor desempenham seu lavor recebem segundo disse o Secretario da União Geral de Policiais, dias livres por esta prática. Todos os migrantes podem cair nesta rede, especialmente os marroquinos, simplesmente porque a extradição é mais simples pelo fato de serem vizinhos da península.

A caça ao migrante começou especialmente nos bairros onde há uma maior presença destes. A caça se intensifica nas entradas e saídas do metrô, nas rodoviárias... Nos funis por onde antes ou depois todos deverão passar para ir ou vir, para tentar cuidar das suas vidas já difíceis pela sua própria situação e natureza.

O ministro dos assuntos internos apresou-se a desmentir, ou mais bem a clarificar ou explicar o significado das ordens transmitidas, mas o certo é que a Espanha e a Europa estão entrando no que alguns já denominam como “racismo institucional”.

Às oito da manhã, antes da crise, quando Espanha crescia por cima das médias européias, todos os migrantes eram necessários. Mas a estas horas da tarde não só prescindimos deles como os perseguimos e caçamos. A dupla moral se impõe a gosto de quem ostenta a força e o poder. A moral e a ética não se humanizam segundo as necessidades das pessoas, mas segundo as necessidades do capital. No fundo, a ordem transmitida não é fruto simplesmente de um problema econômico, de uma situação particular e transitória de crise, mas sim de uma desestruturação moral, onde o Ser Humano é usado para cobrir as necessidades políticas ou econômicas de determinados grupos ou de uma sociedade onde damos mais importância ao ter que ao ser.

É falso falar de uma nova ordem internacional, de uma nova economia, ou de uma aliança de civilizações sem colocarmos como fundamento a dignidade e o direito do Ser Humano, homem-mulher, como base sobre a qual refundar estruturas sociais, dignidade esta que transcende fronteiras sociais, raciais, religiosas e geográficas.

João Carlos Martinez é missionário leigo da Consolata e mora na Espanha.


 

 
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